Jose Saramago Quote

Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de Johann Sebastian Bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a Nona Sinfonia de Beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.

Jose Saramago

Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de Johann Sebastian Bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a Nona Sinfonia de Beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.

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About Jose Saramago

José de Sousa Saramago (Portuguese: [ʒuˈzɛ ðɨ ˈsozɐ sɐɾɐˈmaɣu]; 16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese writer. He was the recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature for his "parables sustained by imagination, compassion and irony [with which he] continually enables us once again to apprehend an elusory reality." His works, some of which can be seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the theopoetic human factor. In 2003 Harold Bloom described Saramago as "the most gifted novelist alive in the world today" and in 2010 said he considers Saramago to be "a permanent part of the Western canon", while James Wood praises "the distinctive tone to his fiction because he narrates his novels as if he were someone both wise and ignorant."
More than two million copies of Saramago's books have been sold in Portugal alone and his work has been translated into 25 languages. A proponent of libertarian communism, Saramago criticized institutions such as the Catholic Church, the European Union and the International Monetary Fund. An atheist, he defended love as an instrument to improve the human condition. In 1992, the Government of Portugal under Prime Minister Aníbal Cavaco Silva ordered the removal of one of his works, The Gospel According to Jesus Christ, from the Aristeion Prize's shortlist, claiming the work was religiously offensive. Disheartened by this political censorship of his work, Saramago went into exile on the Spanish island of Lanzarote, where he lived alongside his Spanish wife Pilar del Río until his death in 2010.
Saramago was a founding member of the National Front for the Defense of Culture in Lisbon in 1992.