Stefan Zweig Quote
O único aspecto que varia nesta perspectiva são as mãos, todas estas mãos, claras, agitadas, ou expectantes ao redor da mesa verde; parecem estar à espreita, à entrada do antro sempre diferente de uma jogada, mas assemelhando-se a uma fera prestes a saltar, tendo cada uma a sua forma e a sua cor, umas despidas, outras munidas de anéis e pulseiras tilintantes; umas peludas como se de animais selvagens, outras flexíveis e luzidias como enguias, mas todas nervosas e vibrantes de uma imensa impaciência. (...)Mas, precisamente porque toda a sua atenção se concentra em exclusivo neste esforço de dissimulação do que existe de notório na sua pessoa, esquecem as mãos, esquecem que há pessoas que observam unicamente estas mãos e que, através delas, conseguem adivinhar tudo aquilo que tanto se esforçam por ocultar, de sorriso nos lábios e falsa expressões de indiferença. A mão, essa trai sem pudor o que eles têm de mais secreto. Pois há-de surgir, forçosamente, um momento em que todos aqueles dedos , a custo contidos e parecendo dormir, deixam o seu indolente abandono: no segundo decisivo em que a bola da roleta cai no seu alvéolo e em que é gritado o número vencedor, então, nesse segundo, cada uma destas cem ou cento e cinquenta mãos esboça involuntariamente um movimento muito pessoal, muito individual, imposto pelo instinto primitivo. E quando se está habituada, como eu, a observar este tipo de arena das mãos, há muito iniciada graças a esta fantasia do meu marido, acha-se muito mais apaixonante do que o teatro ou a música esta forma brusca, incessantemente diferente , incessantemente imprevista, em que os temperamentos, sempre novos, se desmascaram; não posso descrever-lhe em pormenor os milhares de atitudes que revelam as mãos durante um jogo: umas, animais selvagens de dedos peludos e recurvados que agarram o dinheiro à guisa de uma aranha; outras, nervosas, trémulas, de unhas pálidas, mal ousando tocar-lo; outras ainda, nobres ou plebeias, brutais ou tímidas, astuciosas ou quase balbuciantes; mas cada uma tem a sua maneira de ser muito particular, pois cada um destes pares de mãos exprime uma via diferente, exceptuando as dos quatro ou cinco croupiers.
O único aspecto que varia nesta perspectiva são as mãos, todas estas mãos, claras, agitadas, ou expectantes ao redor da mesa verde; parecem estar à espreita, à entrada do antro sempre diferente de uma jogada, mas assemelhando-se a uma fera prestes a saltar, tendo cada uma a sua forma e a sua cor, umas despidas, outras munidas de anéis e pulseiras tilintantes; umas peludas como se de animais selvagens, outras flexíveis e luzidias como enguias, mas todas nervosas e vibrantes de uma imensa impaciência. (...)Mas, precisamente porque toda a sua atenção se concentra em exclusivo neste esforço de dissimulação do que existe de notório na sua pessoa, esquecem as mãos, esquecem que há pessoas que observam unicamente estas mãos e que, através delas, conseguem adivinhar tudo aquilo que tanto se esforçam por ocultar, de sorriso nos lábios e falsa expressões de indiferença. A mão, essa trai sem pudor o que eles têm de mais secreto. Pois há-de surgir, forçosamente, um momento em que todos aqueles dedos , a custo contidos e parecendo dormir, deixam o seu indolente abandono: no segundo decisivo em que a bola da roleta cai no seu alvéolo e em que é gritado o número vencedor, então, nesse segundo, cada uma destas cem ou cento e cinquenta mãos esboça involuntariamente um movimento muito pessoal, muito individual, imposto pelo instinto primitivo. E quando se está habituada, como eu, a observar este tipo de arena das mãos, há muito iniciada graças a esta fantasia do meu marido, acha-se muito mais apaixonante do que o teatro ou a música esta forma brusca, incessantemente diferente , incessantemente imprevista, em que os temperamentos, sempre novos, se desmascaram; não posso descrever-lhe em pormenor os milhares de atitudes que revelam as mãos durante um jogo: umas, animais selvagens de dedos peludos e recurvados que agarram o dinheiro à guisa de uma aranha; outras, nervosas, trémulas, de unhas pálidas, mal ousando tocar-lo; outras ainda, nobres ou plebeias, brutais ou tímidas, astuciosas ou quase balbuciantes; mas cada uma tem a sua maneira de ser muito particular, pois cada um destes pares de mãos exprime uma via diferente, exceptuando as dos quatro ou cinco croupiers.
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